Coisa de Homem – 26

Novembro 26, 2009 por brenobrites

Conversas de bar só são interessantes quando as partes envolvidas atingem o pileque; nada como umas doses de álcool para destravar línguas e juízos, excitar discordâncias; presentear-nos com pérolas como esta:

- Eu sei pagar boquete, mas não gosto.

Parabéns, minha querida, você acabou de espantar todo um grupo de homens, os que estavam à mesa, o garçom, os transeuntes, até o tiozinho que saía cambaleando do banheiro sentiu o baque da sua afirmação.

Não que o sexo oral seja uma obrigação, mas a certeza de que um boquete está fora de cogitação é grave; só não é mais grave do que a impressão de que a mulher não gosta de pau a ponto de sequer encará-lo de frente, quanto mais de pô-lo na boca.

O pau não é uma entidade, faz parte da anatomia masculina, é uma das características do nosso fenótipo; não é uma imposição do gênero, mas um componente da nossa natureza. Que triste constatar que existem mulheres que sentem medo, repulsa, trauma de parte da nossa anatomia; deste corpo cavernoso que passa mais tempo escondido e mole do que ereto e exposto.

Triste também que exista homens que usem de toda a anatomia inerente para impor suas inseguranças, preconceitos, a violência covarde, o desrespeito, a perpetuação de uma mentalidade retrógrada; homens que abordam meninas que se tornam mulheres acuadas, inseguras, silenciosas; mulheres que não gostam de qualquer coisa que lembre um homem, a começar pelo pau; mulheres para quem o sexo é uma imposição social, um dever sujo.

Não há sujeira nenhuma em gostar de alguém plenamente, não é uma obrigação, mas uma manifestação completa de afeto. Sexo oral faz parte da intimidade de quem se relaciona; é fantástico quando feito consensualmente. É natural.

Assim sendo, para os homens vale lembrar que toda buceta é sensível e deve ser estimulada com gosto; também vale lembrar que não se ganha um boquete decente usando a cabeça da parceira como um espremedor de laranja.

E para as mulheres, todo pau é sensível e deve ser manipulado com carinho; não vale apertar nem morder com força, também não vale só dar uma lambidinha com a ponta da língua.

Enfim, o sexo oral é para ser encarado de frente, sem medo ou vergonha; trata-se simplesmente de cair de boca em toda a extensão do corpo de outro alguém. Sejamos menos caretas; se for para não gostar de algo, que seja da ignorância que insiste em fazer parte da nossa cultura.

Coisa de Homem – 25

Novembro 23, 2009 por brenobrites

A constatação do fim de semana: todos os meus namoros acabaram em Novembro. Pensei nisto, achei graça, coisa do fim de ano. Eu acho graça de quase tudo, só não fico sorrindo feito um bobo alegre porque não sou alegre o tempo inteiro.

Presto atenção nas conversas, nos amigos que reclamam de suas vidas afetivas, nos amigos que insistem no erro; o sujeito que não gosta da namorada, mas prefere continuar com ela por comodismo; o amigo que está ficando com a ex-mulher, o irmão que se apaixona, chega em casa e passa uma hora me dando lição de moral. Sim, acho graça.

De repente, comecei a gostar dos Novembros, dos desfechos nesta época do ano; gosto deste Novembro em que não está chovendo, aprecio este calor diferente, o Novembro do churrasco, da música, da piscina, das cervejas geladas e doses de cachaça na xícara; dos amigos todos embriagados lembrando que amanhã é Segunda, mas que se foda, pega uma cerveja quando voltar, beleza? Aquela preguiça boa e a assistência de quem se gosta; todos juntos na mesma preguiça, a preguiça sensível do fim do ano; do Novembro sem chuva.

Neste Novembro em que não ando de mãos dadas com ninguém, uma mão segura a cerveja, a outra segue boba, belisca uma bunda ali, aperta uma cintura acolá; acena para todas.

Mãozinha esperta.

Coisa de Homem – 24

Novembro 10, 2009 por brenobrites

O fim é essencial. Foi o que pensei quando decidimos, Cynthia e eu, escrever sobre o assunto.

Ainda que não pense em relacionamentos com prazo de validade, e conheço gente que pratica este esporte com espartano rigor, a idéia de que o amor pode acabar a qualquer momento é eletrizante. E acaba assim, como começa, do nada.

Gosto do desfecho, o namoro que acaba mal resolvido é um encosto; vamos deixar claro que acabou e seguir cada um para o seu lado, sem esta herança maldita. A idéia de deixar o fim de uma relação mal resolvido causa-me aflição; sou homem de sumir e esquecer; não sofro de nostalgia. Desabafo e aborreço os amigos e irmãos por dois meses, tiro a pessoa do meu sistema, exorcizo.

É mais leve aceitar o fim do que carregar as relações de outrora na memória, é um desperdício de saúde viver com a cabeça no condicional.

Tenho a sorte de o fim dos relacionamentos ser um choque repentino, não sou pego desprevenido graças a minha imaginação fértil, porque esgoto as possibilidades, mas sou atingido por situações pouco convencionais que confirmam o que nós, tolos que somos, os homens, evitamos cogitar; acabou, já era, ela está em outra, faça o mesmo, burrão.

A tristeza que sinto ao fim de uma relação é fútil, eu curto a fossa em doses cavalares de toda cachaça que botarem na minha frente, falo coisas sem sentido; caio numa desgraça que é só minha. Uma fossa exagerada e induzida, para sair dela o mais rápido possível. Porque ficar de bode por muito tempo me aborrece. Sim, neste aspecto sou superficial ao extremo.

Não fico olhando fotos, não tenho problema com esta ou aquela música que ouvíamos juntos, com filmes, peças de roupa, presentes; também não sou amigo de ex-namorada. Tenho a sorte de não vê-las; penso que elas sentem a mesma sorte em relação a mim. Um desfecho bom para ambas as partes. E não falo mal de ex para os outros, tenho isto bem resolvido. É correto encarar o fim com discrição.

Que sejam felizes todas as mulheres que amei; que sejam felizes todas as mulheres que amo; que sejam felizes todas as mulheres que amarei. E se eu puder ser feliz ao lado delas, que seja até o fim. Pois o fim está próximo.

É uma beleza.

Coisa de Homem – 23

Outubro 26, 2009 por brenobrites

Amores etílicos, Cynthia; destilados e fermentados.

Gin-tônica curou meu primeiro amor, bailamos a noite inteira, longa noite em que o mundo começou a rodar, já não estava só, não sentia o corpo bater em quinas, deixei pedaços por toda a cidade; não lembro de chegar em casa, mas seu perfume ficou por dias em mim.

Scotch Whisky foi uma viagem de duas semanas pela madrugada; ela passava aqui em casa depois de alguma viagem de trabalho, um cigarro aceso atrás do outro, reggae no som do carro, um passeio daqueles. Me deixei levar, não tinha carteira de motorista, não sabia dirigir.

Martini era uma ruiva das artes plásticas, gostava de pintar o próprio corpo, de cheirar benzina,  do lado escuro e sujo da cidade; com ela fui das antenas dos prédios aos becos suspeitos, das vernissages às saunas da Augusta; ela era rica e apaixonada por outro, eu tinha tempo de sobra depois das aulas. Misturei muitas bebidas na faculdade, as tintas da profusão, tônicos da juventude. Ideal para quem só andava de ônibus e metrô. E foi n’um coletivo em plena madrugada de sábado que desisti de Martini, matei aula e me servi da loira e transparente  Steinhaeger até o fim do dia.

Muita Cachaça foi para o santo nesta jornada; muitos amigos e desafetos se serviram da mesma garrafa, pequenas doses, tem para todos, penso; é triste beber sozinho. Aos solitários, Pinga.

Mas se ajudo a pagar a conta, garçom, desce outra, por favor.

Vodkas, foram muitas, apenas uma Vódega; desbravamos a pé as ruas de São Paulo, inventamos juntos o Hotel Bali, drink de Stolichnaya e licor de chocolate que a mãe dela mandou do Sul; dela só fiquei amigo, ela era de um amigo meu, de quem bebeu até comer a comanda da festa, Absolut que é. Das outras Vodkas eu me fartei até sobrecarregar as tripas, esquecer, voltar da sarjeta e começar tudo de novo. Ah! minha vocação para o erro, esta coragem engarrafada.

Tequila eu conheci menina e é minha amiga até hoje; das graças e armadilhas das festas e ritmos caribenhos, de cair no chão e rir junto, da própria sorte e falta dela; lábios de sal, doce after taste, cristalina. Tanto que se machuca em suas próprias piñas.

Red Label usava um belo lenço na cabeça, Black Label é uma das mulheres mais inteligentes que já conheci, Blue Label gostava de energéticos, Green Label foi caso de uma noite só.

Bacardi era das festas em casa, das brincadeiras libidinosas, eu nunca daqui, verdade ou consequência dali; a música era sempre alta, excêntrica; pequenas doses a cada revelação, doses de perder a conta, a consciência. Me perdi, ué.

Nihonshu roubava minhas idéias, as citava como se fossem dela, penso que fez o  mesmo com muitos; era divertido ouvi-la contar histórias ao som de músicas italianas e francesas, sempre acompanhada, tão solitária. Trazia Champagne, excelente para as risadas, juntos esquecemos da vida. Desaparecemos um do outro, há quem diga que esta forte lembrança é ressaca, mas deste mal nunca sofri. Ainda.

Amarguei Campari por longos 4 meses. O gosto demorou um pouco mais para sumir da boca. Que sede foi aquela…

Participei de muitas degustações, convidado em algumas, penetra em muitas, observador, um curioso nato; da adega ao boteco. Posso afirmar que algumas mulheres são um porre. Eu sou um porre. Efêmero, imprestável.

A primeira Caipirinha era muito forte, abundante, um desbunde. Quando partiu, delirium tremens. Fiquei triste, afoguei minhas mágoas n’um Brut seco, sem personalidade; por um instante pensei em beber água. Eternos dez segundos.

A segunda Caipirinha, naturalmente doce, transparente, puro frescor para o calor dos dias, para as noites febris; ali eu me perdi por um tempo; não sei se ela perdeu o gosto ou eu o paladar. Faltou açúcar, penso, avesso aos coquetéis adocicados; mas cheguei a provar uma Hula-hula. Cheia de emoção!

E o amor é só dela, da Cerveja.

Mas diletante que sou, hei de beber até a última gota todas as mulheres da minha vida.

Um brinde.

P.S.: não abri a carta de Vinhos pois eles tem para mim um quê de familiar, e não sou adepto do incesto.

Coisa de Homem – 22

Outubro 20, 2009 por brenobrites

Tive a impressão de que levo a vida de outra pessoa, que isto, o que faço, o que sou, é uma farsa; cá estou, mas distante, falo, mas são as palavras de outrem, respiro o ar de segunda mão, a energia vital destinada a outro alguém; estou vivo por tabela.

Deixei uma amiga cortar meu cabelo, a primeira vez em anos que permiti que outra pessoa tocasse em mim daquela maneira, uma violação das boas, vi os cachos caírem no chão; cada tesourada ríspida, aguda aos ouvidos, ela se cortou e eu beijei a pequena ferida, a delicadeza do meu gesto é o oposto do que pensei naquele instante; quero rasgar sua roupa e devorar sua boca, quero deixar seu corpo marcado, morar dentro de você, preciso apagar este incêndio que me consome, sufocar em seus beijos, gemer atrocidades em seu ouvido, gozar no seu rosto e dizer que te amo mirando seus olhos, porque não sou eu; digo apenas o que você quer ouvir.

Acordo no dia seguinte e não lembro de voltar para casa, mas cá estou, suando as bicas, o incêndio é o mesmo de ontem, o calor insuportável. É sábado, vou me acabar em cerveja, deixar que as palavras embaralhadas façam sentido, vou ouvir você tocar violão e chorar emocionado, mistura de admiração e álcool, olhares de reprovação; sinto que vou decepcionar você com elogios fáceis, mas é disso que você gosta; linda, louca, puta, gostosa, vem cá que eu sei do que você precisa, vem me sufocar.

Só vou parar de arder quando estiver morto. Eu só consigo morrer em seus braços, deitado no macio do seu corpo; não sou eu, faça o que quiser comigo.

Lembro de uma canção antiga que escrevi para outra pessoa, mas que agora é sua, você gosta quando minto assim, gosta das sutilezas fúteis, das baladas edulcoradas, do meu toque ardente em seu corpo; eu gosto de passar a mão em você e aproveito cada momento em que estamos longe dos outros para apalpar suas coxas, beliscar sua bunda, roubar um beijo. Não sou eu, faço por instinto o que você pede sem dizer nada; o seu corpo safado deixa um rastro de destruição, um perfume cáustico, sinais de fumaça, fogo, brasas na ponta dos seus dedos. Encosta em mim, por favor. Eu gosto quando você se esfrega neste corpo que não é meu.

Coisa de Homem – 21

Outubro 9, 2009 por brenobrites
Lembro daquela frase de efeito, eu ainda pequeno em frente à televisão; o deliberado tom de medo do locutor.
A  AIDS mata.
Eram os anos 80, o Brasil já tinha perdido a Copa da Espanha, a Seleção Canarinho voltou para o ninho com as calças na mão; o Cometa Haley estava na moda, também a aeróbica e as roupas prateadas; a era dos excessos, dos superlativos; tempo muito bom de se viver a infância.
O exagero também servia para exercitar o medo. De repente a Síndrome da Imuno Deficiência Adquirida tormou-se o câncer gay, doença dos drogados e prostitutas, de gente promíscua; marginal. Senti-me obrigado a colecionar todas as brochuras disponíveis sobre cancros, gonorréias, sífilis; aquilo tornou-se uma febre, fritou as mentes ignorantes, instigou a violência, o preconceito e umas palavras de ordem.
Use SEMPRE camisinha.
Eram vendidas nas farmácias e supermercados, o que causava tamanho constrangimento que era difícil ver alguém pedir um pacote. Usar camisinha era sinônimo de promiscuidade ao ponto de no início dos anos 90 o maior índice de soropositivos ser entre mulheres casadas, donas de casa, cujos maridos levavam uma vida dupla.
Que vida dupla é esta? A vida de uma sociedade provinciana (Estado, instituições religiosas, família, etc) na qual o descaso com a saúde pública e o desrespeito prevalecem. De repente os maridos e esposas das boas famílias juntaram-se aos gays, drogados e prostitutas; a Síndrome era de todos; do Renato Russo, do Henfil, do Betinho, do Cazuza, do Lauro Corona, do Thales Pan Chacon, Sandra Bréa, Cláudia Magno, da Gia Carangi, do Magic Johnson; dos pais e mães e filhos de todo o mundo; dos atletas, artistas, dos ilustres desconhecidos; dos recém nascidos.
Camisinha não era assunto de família, muito menos de escola. Fomos curiosos o suficiente , eu e meu irmão, para roubar um pacote no supermercado e abri-lo, aquela tripa de látex fedorenta sem qualquer instrução sobre como utilizá-las. Coloquei uma delas na minha mão direita, saí correndo atrás das meninas da rua. Foi divertido.
Mas a camisinha era para o sexo, outra modalidade de diversão. Difícil naquele início retardatário de adolescência eu convencer uma menina a fazer sexo com camisinha, mais ainda a fazê-lo comigo. Lembro de algumas colegas de escola que engravidaram dos rapazes mais velhos, mas de raros casos de DST; mais por vergonha do que por não existirem. O diretor da escola em que estudava à época morreu de AIDS, antes vendeu tudo o que tinha e foi morrer como bicho velho, sumido de todos. Eu participava como mero espectador, distante do sexo, das transfusões de sangue; atento aos cochichos, aos documentários e filmes na televisão. E andava com uma camisinha no bolso, só por precaução.
Na metade dos anos 90, começaram a surgir filmes para adolescentes em que a camisinha surgia como componente adicional ao sexo. Mesmo assim ainda ouvia na rua que era como chupar bala com papel, principalmente dos mais velhos. Senti que era eu quem deveria dar o exemplo, até porque todo mundo achava que eu era do contra.
Só fui entender o que é ter vida sexual ativa no fim da adolescência, retardatário que sou. Camisinhas eram disponíveis nos postos de saúde, eram distribuídas nos bailes de Carnaval, surgiram as campanhas de conscientização e o sexo tornou-se um assunto menos místico nos meios sociais. As camisinhas acompanharam o avanço tecnológico e lúdico, vinham em tamanhos diversos, cores diferentes, sabores inusitados, mais finas e resistentes. Surgiu a camisinha feminina, anticoncepcionais menos agressivos, a pílula do dia seguinte, os lubrificantes à base de água. Uma nova sigla, HPV, tornou-se moda, mas não impediu que uma geração de jovens adultos e adolescentes precoces tivessem suas genitálias lavadas em ácidos; também não impediu que meninas cada vez mais jovens, quase crianças grandes, engravidassem. Eram sinais, pensava, guiava-me por eles por um território que ainda considero desconhecido.
Espantava-me com mulheres que no momento em que eu ia colocar a camisinha diziam “pode deixar, eu me cuido”. Não se trata disso, dizia, o que deixou algumas delas irritadas; algumas eu convenci a usar, as que não convenci viram eu vestir-me e ir embora. Não tem álcool nem calor do momento que ultrapasse minha convicção.
Não contraí até hoje nenhuma DST, não engravidei ninguém; mas não sou imune nem caga-regras; minha consciência é o limite. Fiz sexo sem camisinha com poucas mulheres, pois a confiança era mútua e os exames de sangue saem em duas semanas no Hemocentro. Acho bonito cuidar de quem se ama. Até porque não saio abraçando árvores.
E acho sensacional que exista na minha vida desde sempre uma banda tão irreverente que tenha o nome de Camisa de Vênus.

Lembro daquela frase de efeito, eu ainda pequeno em frente à televisão; o deliberado tom de medo do locutor.

A  AIDS mata.

Eram os anos 80, o Brasil já tinha perdido a Copa da Espanha, a Seleção Canarinho voltou para o ninho com as calças na mão; o Cometa Haley estava na moda, também a aeróbica e as roupas prateadas; a era dos excessos, dos superlativos; tempo muito bom de se viver a infância.

O exagero também servia para exercitar o medo. De repente a Síndrome da Imuno Deficiência Adquirida tormou-se o câncer gay, doença dos drogados e prostitutas, de gente promíscua; marginal. Senti-me obrigado a colecionar todas as brochuras disponíveis sobre cancros, gonorréias, sífilis; aquilo tornou-se uma febre, fritou as mentes ignorantes, instigou a violência, o preconceito e umas palavras de ordem.

Use SEMPRE camisinha.

Eram vendidas nas farmácias e supermercados, o que causava tamanho constrangimento que era difícil ver alguém pedir um pacote. Usar camisinha era sinônimo de promiscuidade ao ponto de no início dos anos 90 um dos maiores índices de soropositivos ser entre mulheres casadas, donas de casa, cujos maridos levavam uma vida dupla.

Que vida dupla é esta? A vida de uma sociedade provinciana (Estado, instituições religiosas, família, etc) na qual o descaso com a saúde pública e o desrespeito prevalecem. De repente os maridos e esposas das boas famílias juntaram-se aos gays, drogados e prostitutas; a Síndrome era de todos; do Renato Russo, do Henfil, do Betinho, do Cazuza, do Lauro Corona, do Thales Pan Chacon, Sandra Bréa, Cláudia Magno, da Gia Carangi, do Magic Johnson; dos pais e mães e filhos de todo o mundo; dos atletas, artistas, dos ilustres desconhecidos; dos recém nascidos.

Camisinha não era assunto de família, muito menos de escola. Fomos curiosos o suficiente , eu e meu irmão, para roubar um pacote no supermercado e abri-lo, aquela tripa de látex fedorenta sem qualquer instrução sobre como utilizá-las. Coloquei uma delas na minha mão direita, saí correndo atrás das meninas da rua. Foi divertido.

Mas a camisinha era para o sexo, outra modalidade de diversão. Difícil naquele início retardatário de adolescência eu convencer uma menina a fazer sexo com camisinha, mais ainda a fazê-lo comigo. Lembro de algumas colegas de escola que engravidaram dos rapazes mais velhos, mas de raros casos de DST; mais por vergonha do que por não existirem. O diretor da escola em que estudava à época morreu de AIDS, antes vendeu tudo o que tinha e foi morrer como bicho velho, sumido de todos. Eu participava como mero espectador, distante do sexo, das transfusões de sangue; atento aos cochichos, aos documentários e filmes na televisão. E andava com uma camisinha no bolso, só por precaução.

Na metade dos anos 90, começaram a surgir filmes para adolescentes em que a camisinha surgia como componente adicional ao sexo. Mesmo assim ainda ouvia na rua que era como chupar bala com papel, principalmente dos mais velhos. Senti que era eu quem deveria dar o exemplo, até porque todo mundo achava que eu era do contra.

Só fui entender o que é ter vida sexual ativa no fim da adolescência, retardatário que sou. Camisinhas eram disponíveis nos postos de saúde, eram distribuídas nos bailes de Carnaval, surgiram as campanhas de conscientização e o sexo tornou-se um assunto menos místico nos meios sociais. As camisinhas acompanharam o avanço tecnológico e lúdico, vinham em tamanhos diversos, cores diferentes, sabores inusitados, mais finas e resistentes. Surgiu a camisinha feminina, anticoncepcionais menos agressivos, a pílula do dia seguinte, os lubrificantes à base de água. Uma nova sigla, HPV, tornou-se moda, mas não impediu que uma geração de jovens adultos e adolescentes precoces tivessem suas genitálias lavadas em ácidos; também não impediu que meninas cada vez mais jovens, quase crianças grandes, engravidassem. Eram sinais, pensava, guiava-me por eles por um território que ainda considero desconhecido.

Espantava-me com mulheres que no momento em que eu ia colocar a camisinha diziam “pode deixar, eu me cuido”. Não se trata disso, dizia, o que deixou algumas delas irritadas; algumas eu convenci a usar, as que não convenci viram eu vestir-me e ir embora. Não tem álcool nem calor do momento que ultrapasse minha convicção.

Não contraí até hoje nenhuma DST, não engravidei ninguém; mas não sou imune nem caga-regras; minha consciência é o limite. Fiz sexo sem camisinha com poucas mulheres, pois a confiança era mútua e os exames de sangue saem em duas semanas no Hemocentro. Acho bonito cuidar de quem se ama. Até porque não saio abraçando árvores.

E acho sensacional que exista na minha vida desde sempre uma banda tão irreverente que tenha o nome de Camisa de Vênus.

P.S.: a Cynthia também escreveu sobre o assunto. E foi muito cuidadosa ao fazê-lo. :*

Coisa de Homem – 20

Outubro 5, 2009 por brenobrites

Tristeza em plena Segunda-feira; nada emocionalmente fora do controle, apenas o fastio pós feijoada. Pois é, meus queridos, feijoada, uma explosão de sabores e cheiros, de um pecado mordaz este de empanturrar-se e arriar a lombra por toda a tarde, seguir a noite suando na sola do pé e emitindo sons guturais, aqueles de quem não tem mais forças para mover-se, falar; força para nada.

Tristeza de quem sente fraqueza, uma dificuldade para sair da cama, a necessidade de gemer aquela dor de quem está sobrecarregado, pesado; dificuldade de pensar. Estas linhas são preguiçosas demais. Ê, canseira danada.

Tristeza que não passa, que sou incapaz de suar, artificial tristeza que faz desta manhã de Segunda-feira uma eternidade; ai de mim! Neste exato momento, sou a própria face da derrota. Ai de mim! E quem mais sabe desta tristeza do que eu? Este pobre eu, triste e solitário eu dos pensamentos impuros, da falta de amor. Triste eu que sou nesta manhã agradável em que a brisa traz refresco às tolices que penso.

Tristeza, porque só penso besteira.

Coisa de Homem – 19

Setembro 25, 2009 por brenobrites

Comentei que gosto de mulher doida em texto anterior; decidimos eu e Cynthia esmiuçar a questão no que diz respeito a tirar alguém do sério e vice-versa. Porque é coisa nossa, de homem e mulher, encontrar alguém que nos enlouquece e seria ingenuidade da nossa parte imaginar que não fazemos o mesmo.

É costume da sociedade em que vivemos; tem quem considere pequenas doses de loucura um condimento especial para a relação. Pois não é, é coisa de gente insegura, prepotente, possessiva; é uma modificação da mente que traz mais dívidas do que lucros, pois desgasta qualquer relação ao ponto de não se querer mais saber do outro; beira o desrespeito, a desconsideração; culmina em mágoa, raiva, ressentimento; passa por cima das boas memórias e deixa um rastro acinzentado de lembranças amargas.

Ter opiniões diferentes sobre diversos assuntos e discutir é saudável para a relação; tirar alguém do sério ou estar com alguém que o faça é sofrer deliberadamente, um deleite perverso; o esgotamento da saúde mental é o que resgata nossa bestialidade, é a manifestação da barbárie para cima de quem nós, em tese, queremos bem.

Está na moda a misantropia. E a misantropia anda de mãos dadas com a falta de estima.

Faz parte da nossa natureza, a natureza humana, esta quimera num labirinto de espelhos, insistir no erro; por teimosia, paixão, desejo, imaturidade; a nossa arrogância em acreditar que somos capazes de transformar alguém, a crença de que podemos ser salvos pelo amor, por alguém que nos faz sentir amor e que nosso amor é capaz de salvar este alguém.

Não há salvação. Há desencanto, desilusão, desentendimento; a comunicação deixa de ser direta, as palavras começam a ser medidas; os silêncios, constrangedores. E as brigas, constantes. Afastar-se é natural, o que gera a raiva,  a mágoa, o ressentimento citados no segundo parágrafo. É necessário ter sensibilidade para saber a hora de tirar o time de campo. E todo desfecho é dor no volume máximo.

Superar o desencanto, a desilusão, o desentendimento é o que fortalece uma relação e a nós mesmos; porque somos todos loucos, temos nossos momentos de loucura e o direito de tê-los; somos incapazes de poupar os nossos desta indulgência. Aquilo que nos faz atraentes às vezes é o que nos torna repulsivos, o contrário também se aplica.

Não estou escrevendo sobre loucuras patológicas, para estas existem tratamentos e acompanhamentos diferenciados. O amor não cura, tampouco salva alguém destes males. Não insista.

Também não escrevo sobre perversão; os pervertidos, ao contrário do que se pensa sobre eles, fazem suas brincadeiras de comum acordo. E muito respeito.

Escrevo sobre a emoção ambivalente que sinto ao constatar que os poemas, as músicas, os desenhos e fotos que dediquei às mulheres que amei foram a principal razão de tê-las afastado. Porque não as convenci de que isto é mais do que trabalho, sou eu; um eu que não foi bastante, não viu a luz, que não precisa ser salvo. E que não vai se transformar em outro eu, irreconhecível aos próprios olhos, sujeito à rejeição da mulher que o convenceu a mudar, que também não o reconhece e que – pasme-se! –  o abandona.

Os poemas, as músicas, os desenhos e fotos, eles são dedicados a quem os queira; são bastantes.

Já este eu que vos escreve, não empresta. É imprestável.

Coisa de Homem – 18

Setembro 22, 2009 por brenobrites

Fui indagado sobre o propósito da sedução de cozimento lento. Atento ao fato de que algumas pessoas lêem estes textos, ainda que não deixem comentários publicados, escolhi ser prudente ao escrever esta réplica.

A sedução de cozimento lento é bastante; isto significa que a idéia em si é o propósito e sua função é conceitual, específica, aberta ao debate, à reflexão e ao ato em si, nos níveis de critério e bom senso aceito pelas partes envolvidas.

Entender a sedução de cozimento lento é aceitar que existem fins reprodutivos, recreativos, uma sorte de componentes físicos, mentais, espirituais e emocionais que podem ser adicionados ao processo, bem como subtraídos, misturados ao gosto de seus praticantes.

Pensar na sedução de cozimento lento como um ato funcional é descaracterizá-la, pois desconsidera seu aspecto lúdico; a estética do ato em si é motivo, mas não o propósito, do mesmo.

Não é um elemento decorativo, mas aquilo que nos diferencia ao apreciar uma obra de arte (qualquer uma); a capacidade de reconhecer o belo porque nos conhecemos e nos entendemos melhor como indivíduos. Conscientemente, nos elevamos; nos relacionamos melhor com as pessoas ao nosso redor, com o ambiente que nos cerca; aceitamos nossas qualidades (boas e más) e as reconhecemos nos outros; o que nos faz completos. Somos grandes em nossa insignificância e não estamos sós.

Resumindo: a sedução de cozimento lento  não serve para nada; eis a sua beleza.

P.S.: vá preparar a sua e tire suas próprias conclusões.

Coisa de Homem – 17

Setembro 15, 2009 por brenobrites

Sedução de cozimento lento; que missão.

Slow seduction (termo cunhado pela Cynthia) é o resgate do flerte, da corte, daquela inocência pueril de quem acaba de descobrir um novo sabor, um cheiro inusitado, as nuances de gestos e toques; é degustar sem pressa e muita curiosidade a pessoa que se deseja.

Em tempos em que o tempo é artigo de luxo, é uma boa pedida; um excelente investimento. Em si próprio e na(o) parceira(o). É dedicar-se com exclusividade, objetividade, foco; é dar a devida atenção a alguém pelo máximo tempo que se tem e que “seja eterno enquanto dure”. Porque pode ser casual,  com namorada(o), com um(a) ilustre desconhecido(a); pode ser com amiga(o), com amante, com mais de um(a). Só não pode ser para ontem.

A sedução de cozimento lento distancia-nos do cotidiano, tem como princípio básico o prazer de estar com alguém naquele momento e extrair dele o máximo. Não é uma imposição, mas o entendimento das partes envolvidas em dar e receber prazer.

Não está necessariamente atrelada ao sexo, mas tem lá seus componentes sexuais, mais para a brincadeira do que para a obrigação. Mais para a diversão do que para demonstrações de desempenho e potência. É mais experimental do que certo e, por esta razão, mais passível de acerto; porque não é uma obrigação, mas a oportunidade de seduzir e deixar-se seduzir espontaneamente.

Sem expectativas e frustrações, sem qualquer imposição, qualquer atividade sexual é mais prazerosa. Até quando não há penetração. Porque acaba em gozo de qualquer jeito.

É sentir-se bem fazendo outra pessoa sentir-se bem; só perde quem pensa não ter tempo para essas coisas.

OBS: não requer talento especial a sedução de cozimento lento;  quanto à prática, mais é bem melhor.