Lembro daquela frase de efeito, eu ainda pequeno em frente à televisão; o deliberado tom de medo do locutor.
A AIDS mata.
Eram os anos 80, o Brasil já tinha perdido a Copa da Espanha, a Seleção Canarinho voltou para o ninho com as calças na mão; o Cometa Haley estava na moda, também a aeróbica e as roupas prateadas; a era dos excessos, dos superlativos; tempo muito bom de se viver a infância.
O exagero também servia para exercitar o medo. De repente a Síndrome da Imuno Deficiência Adquirida tormou-se o câncer gay, doença dos drogados e prostitutas, de gente promíscua; marginal. Senti-me obrigado a colecionar todas as brochuras disponíveis sobre cancros, gonorréias, sífilis; aquilo tornou-se uma febre, fritou as mentes ignorantes, instigou a violência, o preconceito e umas palavras de ordem.
Use SEMPRE camisinha.
Eram vendidas nas farmácias e supermercados, o que causava tamanho constrangimento que era difícil ver alguém pedir um pacote. Usar camisinha era sinônimo de promiscuidade ao ponto de no início dos anos 90 o maior índice de soropositivos ser entre mulheres casadas, donas de casa, cujos maridos levavam uma vida dupla.
Que vida dupla é esta? A vida de uma sociedade provinciana (Estado, instituições religiosas, família, etc) na qual o descaso com a saúde pública e o desrespeito prevalecem. De repente os maridos e esposas das boas famílias juntaram-se aos gays, drogados e prostitutas; a Síndrome era de todos; do Renato Russo, do Henfil, do Betinho, do Cazuza, do Lauro Corona, do Thales Pan Chacon, Sandra Bréa, Cláudia Magno, da Gia Carangi, do Magic Johnson; dos pais e mães e filhos de todo o mundo; dos atletas, artistas, dos ilustres desconhecidos; dos recém nascidos.
Camisinha não era assunto de família, muito menos de escola. Fomos curiosos o suficiente , eu e meu irmão, para roubar um pacote no supermercado e abri-lo, aquela tripa de látex fedorenta sem qualquer instrução sobre como utilizá-las. Coloquei uma delas na minha mão direita, saí correndo atrás das meninas da rua. Foi divertido.
Mas a camisinha era para o sexo, outra modalidade de diversão. Difícil naquele início retardatário de adolescência eu convencer uma menina a fazer sexo com camisinha, mais ainda a fazê-lo comigo. Lembro de algumas colegas de escola que engravidaram dos rapazes mais velhos, mas de raros casos de DST; mais por vergonha do que por não existirem. O diretor da escola em que estudava à época morreu de AIDS, antes vendeu tudo o que tinha e foi morrer como bicho velho, sumido de todos. Eu participava como mero espectador, distante do sexo, das transfusões de sangue; atento aos cochichos, aos documentários e filmes na televisão. E andava com uma camisinha no bolso, só por precaução.
Na metade dos anos 90, começaram a surgir filmes para adolescentes em que a camisinha surgia como componente adicional ao sexo. Mesmo assim ainda ouvia na rua que era como chupar bala com papel, principalmente dos mais velhos. Senti que era eu quem deveria dar o exemplo, até porque todo mundo achava que eu era do contra.
Só fui entender o que é ter vida sexual ativa no fim da adolescência, retardatário que sou. Camisinhas eram disponíveis nos postos de saúde, eram distribuídas nos bailes de Carnaval, surgiram as campanhas de conscientização e o sexo tornou-se um assunto menos místico nos meios sociais. As camisinhas acompanharam o avanço tecnológico e lúdico, vinham em tamanhos diversos, cores diferentes, sabores inusitados, mais finas e resistentes. Surgiu a camisinha feminina, anticoncepcionais menos agressivos, a pílula do dia seguinte, os lubrificantes à base de água. Uma nova sigla, HPV, tornou-se moda, mas não impediu que uma geração de jovens adultos e adolescentes precoces tivessem suas genitálias lavadas em ácidos; também não impediu que meninas cada vez mais jovens, quase crianças grandes, engravidassem. Eram sinais, pensava, guiava-me por eles por um território que ainda considero desconhecido.
Espantava-me com mulheres que no momento em que eu ia colocar a camisinha diziam “pode deixar, eu me cuido”. Não se trata disso, dizia, o que deixou algumas delas irritadas; algumas eu convenci a usar, as que não convenci viram eu vestir-me e ir embora. Não tem álcool nem calor do momento que ultrapasse minha convicção.
Não contraí até hoje nenhuma DST, não engravidei ninguém; mas não sou imune nem caga-regras; minha consciência é o limite. Fiz sexo sem camisinha com poucas mulheres, pois a confiança era mútua e os exames de sangue saem em duas semanas no Hemocentro. Acho bonito cuidar de quem se ama. Até porque não saio abraçando árvores.
E acho sensacional que exista na minha vida desde sempre uma banda tão irreverente que tenha o nome de Camisa de Vênus.
Lembro daquela frase de efeito, eu ainda pequeno em frente à televisão; o deliberado tom de medo do locutor.
A AIDS mata.
Eram os anos 80, o Brasil já tinha perdido a Copa da Espanha, a Seleção Canarinho voltou para o ninho com as calças na mão; o Cometa Haley estava na moda, também a aeróbica e as roupas prateadas; a era dos excessos, dos superlativos; tempo muito bom de se viver a infância.
O exagero também servia para exercitar o medo. De repente a Síndrome da Imuno Deficiência Adquirida tormou-se o câncer gay, doença dos drogados e prostitutas, de gente promíscua; marginal. Senti-me obrigado a colecionar todas as brochuras disponíveis sobre cancros, gonorréias, sífilis; aquilo tornou-se uma febre, fritou as mentes ignorantes, instigou a violência, o preconceito e umas palavras de ordem.
Use SEMPRE camisinha.
Eram vendidas nas farmácias e supermercados, o que causava tamanho constrangimento que era difícil ver alguém pedir um pacote. Usar camisinha era sinônimo de promiscuidade ao ponto de no início dos anos 90 um dos maiores índices de soropositivos ser entre mulheres casadas, donas de casa, cujos maridos levavam uma vida dupla.
Que vida dupla é esta? A vida de uma sociedade provinciana (Estado, instituições religiosas, família, etc) na qual o descaso com a saúde pública e o desrespeito prevalecem. De repente os maridos e esposas das boas famílias juntaram-se aos gays, drogados e prostitutas; a Síndrome era de todos; do Renato Russo, do Henfil, do Betinho, do Cazuza, do Lauro Corona, do Thales Pan Chacon, Sandra Bréa, Cláudia Magno, da Gia Carangi, do Magic Johnson; dos pais e mães e filhos de todo o mundo; dos atletas, artistas, dos ilustres desconhecidos; dos recém nascidos.
Camisinha não era assunto de família, muito menos de escola. Fomos curiosos o suficiente , eu e meu irmão, para roubar um pacote no supermercado e abri-lo, aquela tripa de látex fedorenta sem qualquer instrução sobre como utilizá-las. Coloquei uma delas na minha mão direita, saí correndo atrás das meninas da rua. Foi divertido.
Mas a camisinha era para o sexo, outra modalidade de diversão. Difícil naquele início retardatário de adolescência eu convencer uma menina a fazer sexo com camisinha, mais ainda a fazê-lo comigo. Lembro de algumas colegas de escola que engravidaram dos rapazes mais velhos, mas de raros casos de DST; mais por vergonha do que por não existirem. O diretor da escola em que estudava à época morreu de AIDS, antes vendeu tudo o que tinha e foi morrer como bicho velho, sumido de todos. Eu participava como mero espectador, distante do sexo, das transfusões de sangue; atento aos cochichos, aos documentários e filmes na televisão. E andava com uma camisinha no bolso, só por precaução.
Na metade dos anos 90, começaram a surgir filmes para adolescentes em que a camisinha surgia como componente adicional ao sexo. Mesmo assim ainda ouvia na rua que era como chupar bala com papel, principalmente dos mais velhos. Senti que era eu quem deveria dar o exemplo, até porque todo mundo achava que eu era do contra.
Só fui entender o que é ter vida sexual ativa no fim da adolescência, retardatário que sou. Camisinhas eram disponíveis nos postos de saúde, eram distribuídas nos bailes de Carnaval, surgiram as campanhas de conscientização e o sexo tornou-se um assunto menos místico nos meios sociais. As camisinhas acompanharam o avanço tecnológico e lúdico, vinham em tamanhos diversos, cores diferentes, sabores inusitados, mais finas e resistentes. Surgiu a camisinha feminina, anticoncepcionais menos agressivos, a pílula do dia seguinte, os lubrificantes à base de água. Uma nova sigla, HPV, tornou-se moda, mas não impediu que uma geração de jovens adultos e adolescentes precoces tivessem suas genitálias lavadas em ácidos; também não impediu que meninas cada vez mais jovens, quase crianças grandes, engravidassem. Eram sinais, pensava, guiava-me por eles por um território que ainda considero desconhecido.
Espantava-me com mulheres que no momento em que eu ia colocar a camisinha diziam “pode deixar, eu me cuido”. Não se trata disso, dizia, o que deixou algumas delas irritadas; algumas eu convenci a usar, as que não convenci viram eu vestir-me e ir embora. Não tem álcool nem calor do momento que ultrapasse minha convicção.
Não contraí até hoje nenhuma DST, não engravidei ninguém; mas não sou imune nem caga-regras; minha consciência é o limite. Fiz sexo sem camisinha com poucas mulheres, pois a confiança era mútua e os exames de sangue saem em duas semanas no Hemocentro. Acho bonito cuidar de quem se ama. Até porque não saio abraçando árvores.
E acho sensacional que exista na minha vida desde sempre uma banda tão irreverente que tenha o nome de Camisa de Vênus.
P.S.: a Cynthia também escreveu sobre o assunto. E foi muito cuidadosa ao fazê-lo. :*