Gostava da penumbra, pois, entre a matéria escura, tudo era belo; via-se o que apraz, via-se de tudo; eram todos os preconceitos anulados. Na penumbra, jogos de luz e sombra, a idade das trevas, a idade média, a busca pela iluminação; éramos todos crianças a brincar de ‘gato, mia’, éramos inocentes. Na penumbra, a culpa era absorvida pela matéria escura ao nosso redor.
Um de nós acendeu a luz, e o silêncio ao nosso redor era denso. O odor do silêncio misturava-se ao suor dos nossos corpos, a juventude destilada permeando nossos corpos, um pouco de nossas vidas a sair dos corpos; todos ofegantes no mesmo recinto. Toda aquela luz a nos cegar, todo o calor das lâmpadas incandescentes, todo aquele vermelho a tingir as peles de nossos corpos. Vermelho.
Em silêncio, no escuro, beijei seus seios; pequenos, firmes, tímidos; era eu embriagado, afogado no seu suor, atento a ouvir suspiros, gemidos. Uma pausa: chegamos, daqui não há volta. Na penumbra, nem sequer uma palavra, quiçá uma sílaba, letra, um ranger de dentes. Não respiramos.
Mortos por um instante, fomos a lugar nenhum. Entre o piscar da luz, ficamos cegos, vislumbramos o pôr-do-sol, fomos ao fim, voltamos, sentamos no meio-fio de uma rua qualquer e, quietos, nada fizemos. Deixamos de querer.
A mariposa não desiste da luz. É o inferno.
Distante da penumbra, pensei por um instante. Pensar tirou-me do sério, do lugar comum, do conforto de mil anos em que deitei e deixei toda a minha pele; sou um pedaço de carne, na penumbra sou o que você quiser. A luz faz de mim um monstro vermelho, nervoso, pulsante; meu sangue repele insetos e o amor. Você admira asas de borboleta e quer tocá-las, não pensa que asas de borboleta fenecem após um ínfimo toque. São pequenos anjos caídos, as borboletas no jardim.