Coisa de Homem – 19

By brenobrites

Comentei que gosto de mulher doida em texto anterior; decidimos eu e Cynthia esmiuçar a questão no que diz respeito a tirar alguém do sério e vice-versa. Porque é coisa nossa, de homem e mulher, encontrar alguém que nos enlouquece e seria ingenuidade da nossa parte imaginar que não fazemos o mesmo.

É costume da sociedade em que vivemos; tem quem considere pequenas doses de loucura um condimento especial para a relação. Pois não é, é coisa de gente insegura, prepotente, possessiva; é uma modificação da mente que traz mais dívidas do que lucros, pois desgasta qualquer relação ao ponto de não se querer mais saber do outro; beira o desrespeito, a desconsideração; culmina em mágoa, raiva, ressentimento; passa por cima das boas memórias e deixa um rastro acinzentado de lembranças amargas.

Ter opiniões diferentes sobre diversos assuntos e discutir é saudável para a relação; tirar alguém do sério ou estar com alguém que o faça é sofrer deliberadamente, um deleite perverso; o esgotamento da saúde mental é o que resgata nossa bestialidade, é a manifestação da barbárie para cima de quem nós, em tese, queremos bem.

Está na moda a misantropia. E a misantropia anda de mãos dadas com a falta de estima.

Faz parte da nossa natureza, a natureza humana, esta quimera num labirinto de espelhos, insistir no erro; por teimosia, paixão, desejo, imaturidade; a nossa arrogância em acreditar que somos capazes de transformar alguém, a crença de que podemos ser salvos pelo amor, por alguém que nos faz sentir amor e que nosso amor é capaz de salvar este alguém.

Não há salvação. Há desencanto, desilusão, desentendimento; a comunicação deixa de ser direta, as palavras começam a ser medidas; os silêncios, constrangedores. E as brigas, constantes. Afastar-se é natural, o que gera a raiva,  a mágoa, o ressentimento citados no segundo parágrafo. É necessário ter sensibilidade para saber a hora de tirar o time de campo. E todo desfecho é dor no volume máximo.

Superar o desencanto, a desilusão, o desentendimento é o que fortalece uma relação e a nós mesmos; porque somos todos loucos, temos nossos momentos de loucura e o direito de tê-los; somos incapazes de poupar os nossos desta indulgência. Aquilo que nos faz atraentes às vezes é o que nos torna repulsivos, o contrário também se aplica.

Não estou escrevendo sobre loucuras patológicas, para estas existem tratamentos e acompanhamentos diferenciados. O amor não cura, tampouco salva alguém destes males. Não insista.

Também não escrevo sobre perversão; os pervertidos, ao contrário do que se pensa sobre eles, fazem suas brincadeiras de comum acordo. E muito respeito.

Escrevo sobre a emoção ambivalente que sinto ao constatar que os poemas, as músicas, os desenhos e fotos que dediquei às mulheres que amei foram a principal razão de tê-las afastado. Porque não as convenci de que isto é mais do que trabalho, sou eu; um eu que não foi bastante, não viu a luz, que não precisa ser salvo. E que não vai se transformar em outro eu, irreconhecível aos próprios olhos, sujeito à rejeição da mulher que o convenceu a mudar, que também não o reconhece e que – pasme-se! –  o abandona.

Os poemas, as músicas, os desenhos e fotos, eles são dedicados a quem os queira; são bastantes.

Já este eu que vos escreve, não empresta. É imprestável.

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9 Respostas para “Coisa de Homem – 19”

  1. Os botões que a gente aperta « blogjob Disse:

    [...] algumas pessoas apertaram esses meus botões e me tiraram do sério. O tema de hoje é sugestão do Breno, provavelmente o maior especialista, com todo respeito, que conheço no assunto de relacionamentos [...]

  2. Maíra Disse:

    tem certas características de um relacionamento que só funcionam em filmes, séries e novelas. por exemplo, o caso da pessoa doida. exemplo melhor ainda: o amor que salva tudo. sim, só no mundo da ficção, e ainda bem, na verdade, senão seria uma comoção ainda maior, as carências seriam piores e a “guerra” seria uma verdadeira carnificina.

  3. Menina Misteriosa Disse:

    Breno, sensacional!
    Salvar, ser salvo, mudar o outro, querer ser outra pessoa… são formas de controle, de posse. De loucura. Colocar a nossa felicidade nas mãos de outra pessoa ou sentir que temos a de outra pessoa em nossas mãos.
    Acredito que a liberdade que une. A sinceridade e coragem que fazem a diferença!
    Mais um belo texto!
    Boa semana,
    Beijos

    • brenobrites Disse:

      Depender de alguém ou ter alguém dependendo de nós para ser feliz é impedir a liberdade que você descreveu; melhor estar ao lado de alguém por vontade própria do que por uma suposta falta de opção. O que se faz por amor às vezes é por falta de amor próprio, não tem como dar certo esta equação.
      Beijo e boa semana!

  4. Verônica Disse:

    só muito recentemente eu me aceitei como escrota porque fiz um anti-amigo. bem, pelo menos até onde sei é só um. menos mal…
    é muito interessante descobrir esse tipo de simetria, tão desesperadoramente horrível quanto ridícula (espezinhar – ser espezinhada, maltratar – ser maltratada…) e que realmente só pode acabar mal. eu, bem cinicamente, jurava q acabaria bem, q seríamos amigos. não deu, óbvio. duas pessoas q só conseguem despertar o pior lado um do outro não conseguem ter um desfecho satisfatório, razoável. mas, quer saber?, foi libertador reconhecer esse meu lado pequeno, mesquinho, pq agora eu sei como ele é, sei do q sou capaz. e agora a obrigação é não reincidir. assim espero :>

    em suma: mais um post q futucou no ponto certo… damn you! :P

    adorei! :>

  5. Guto Disse:

    Nessas andanças de relações pude perceber que muitas “vítimas” na verdade são os maiores vilões, são quem aceita e estimula o “algoz” na intimidade e quem o ataca em público. Eu que antes corria para defender os frascos e comprimidos, parei para ver que em muitos casos a suposta vítima é quem dá suporte à relação disfuncional, aproveitando-se do destempero emocional da outra parte, e pouco a pouco minando a auto-estima do “algoz” e vivendo da fama de santo que obtém ao suportar tamanho vilão. Casos de desamor, desafeto, em que a grande sorte é quando terminam rápido e estrondosamente, sem condição de retorno.

    • brenobrites Disse:

      Não acredito que bater e soprar funcione, também não acredito que exista um único vilão, uma única vítima. Se há duas pessoas numa relação, a disfunção é mútua, compartilhada, a responsabilidade também.
      E se acaba rápido, melhor. Sou a favor do desfecho fulminante.
      Abraços.

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